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Tempo Técnico - Diogo Batista, Treinador do CQV

Por André Lima


Diogo Batista, o atual técnico campeão da LIVERJ e fundador/técnico do projeto CQV, é daqueles sujeitos totalmente transparentes. Pelo seu tom de fala, é possível saber se ele ficou satisfeito ou desconfortável com um questionamento. Seus comandados o reconhecem pela justiça, pelo estudo e pela visão divertida de mundo. É um homem conhecido por levar o lúdico para as quadras e por saber avaliar o calibre de cada menina que tem sob seu comando. Também exerce uma capacidade quase sobre-humana de estar em dois lugares em tempo recorde. Petrópolis e UERJ juram que veem o cara na mesma hora. Com energia e muito sonho, ela dribla o cansaço para conduzir as talentosas meninas do adulto e da base do CQV. Confiram o prazer que tive em falar com uma das visões mais clínicas da LIVERJ.



1. Qual a origem do CQV?


Eu assumi a equipe do vôlei feminino da UERJ na transição de 2011 para 2012. Disputávamos competições universitárias. Comecei a pesquisar e conversar com o pessoal que jogava outras competições, pensando em não ficar com o calendário restrito aos torneios universitários. Em um bate-papo informal com meu ex-professor Guilherme Locks, ele falou da falta de autonomia para usar o nome UERJ e mostrou até preocupação jurídica. Reuni as atletas e falei da impossibilidade. Para disputar competições amadoras, teríamos que escolher outro nome. Eu lembro que na época tinha uma menina que ficava cantando “Chama que ela vem”*. Era uma criancinha dançando, e a Blena (Marinho, atleta) adorava aquele vídeo. Ela falava daquilo todo treino. Fazia coreografia e nós ríamos. Ela sugeriu que nos chamássemos “Chama que ela vem”. Pensei que era muito grande e não tinha nome de time de vôlei. Aconselhei que usássemos apenas as iniciais para formar a sigla. A Paula chegou com as sugestões das cores, as oficiais da UERJ. E o logo veio com noites de trabalho no photoshop e uma votação entre os modelos que criei.


*Vídeo de “Chama que ela vem”: https://youtu.be/pYOAAfdEIU8


2. O CQV venceu a LIVERJ três vezes no antigo modelo e sagrou-se campeão em 2019 com um novo formato de disputa. Qual foram os sabores dessas diferentes conquistas? E como soou virar um jogo que parecia perdido na final?


Nós vencemos a LIVERJ no antigo formato em 2013, 2014 e 2015. A equipe daquela época se fortaleceu muito ao longo dos anos. Em 2015, fizemos a etapa com apenas uma derrota. Ou não perdeu nenhum jogo. Teve hegemonia no adulto. Nesse período, nós chegamos a ser campeões no sub-21 e no sub-23.

Quanto ao ano passado, eu me sentei com o Caio (auxiliar) e com o Gabriel (fisioterapeuta) para traçar os objetivos para temporada. Nós tínhamos a final como meta. Tanto que nos reforçamos muito, nos estruturamos. Estudamos os adversários desde o início da temporada. Ficamos projetando contas, analisando as probabilidades de classificação, e deu tudo certo. Temos hoje um plantel com muita qualidade, que possibilita a mexida na equipe em diferentes situações de jogo.

Em relação aos três títulos anteriores foi mais trabalhoso, até pelo formato de competição. Foi diferente porque nos três primeiros títulos nós estávamos crescendo. E é como se nós tivéssemos sido muito mais profissionais para conseguir alcançar o título no ano passado.

Em relação a virar um jogo que parecia perdido na final, eu já escutei muitas vezes as pessoas falarem que o CQV é um time pipoqueiro. Já havíamos tido um episódio parecido em uma etapa no Oásis, ainda no formato antigo, contra o Cariocas da Gema. Ganhamos o primeiro set, perdemos o segundo e viramos no tie-break depois de perder por 9 a 0(o jogo acabou 16-14). Essa vitória de 2019 foi valorizada por ser em cima de uma equipe muito qualificada. O Cariocas tem um time muito forte, alto e muita técnica. Um adversário excepcional. Foi um jogaço digno de uma final.


3. Por que é dito que uma de suas principais propostas é o conceito de construção coletiva?


Eu nem acho que isso é meu. Acho que vai muito do meu grupo de pessoas, que ainda tem contato com a universidade. Eu entendo que a universidade deveria ser um espaço extremamente democrático. A UERJ tem esse perfil, bem democrática, plural. E nós herdamos disso. E sempre tivemos a preocupação de juntar equipe após o treino para comentar sobre a atividade que acabamos de encerrar. As atletas são bem críticas, para falar a verdade. Nós tratamos também de outras demandas, damos voz a quem queira falar dentro do grupo. Esse é um ponto positivo.



4. Como foram as suas passagens por Botafogo e Flamengo como profissional?


Minhas passagens por Botafogo e Flamengo foram bem diferentes, boas, produtivas. Isso até pelo trabalho que eu fui exercer em cada uma delas. Minha formação profissional teria sido completamente diferente se eu não tivesse oportunidade de entrar no Flamengo. Na verdade, eu entrei no Flamengo para fazer um estágio, e foram dois anos de muito aprendizado. Eu tive oportunidade de trabalhar com Heloísa Roese, Alexandre Rosemberg, Arly Cunha e com Josimar Reis. E foi com o Josimar que tive mais proximidade, porque eu acabava acompanhando muito mais as equipes femininas. Como eu já estava começando a comandar o time da UERJ, eu tinha possibilidade de aplicar o meu aprendizado. Não com caráter de repetição, mas eu podia pegar aquelas experiências, refletir e transferir para minha realidade. Afinal de contas, eu fazia estágio nas categorias de base. E eu tenho certeza que isso foi determinante para a evolução do CQV.

Quando eu cheguei ao Botafogo, foi para comandar a equipe master, o outro extremo do trabalho anterior. Outra categoria, outra realidade. Tive a oportunidade de disputar o Campeonato Brasileiro em Saquarema. De ver coisas incríveis como um time +70. Estar no Botafogo foi produtivo pelo ineditismo. E fiquei em três categorias masculinas: +50, +55 e +59.


5. Qual o trabalho para fazer com que o peso da defesa do título da LIVERJ 2019 não tenha impacto ao longo da temporada atual?


Eu estou contando com uma psicóloga que o Vinicius (Azevedo, presidente da LIVERJ) vai liberar para nós (RISOS). É brincadeira. É comum o comentário entre os profissionais de que se manter no topo é mais difícil do que eu chegar nele. Manter o grupo motivado, depois de ganhar um título tão importante quanto o da LIVERJ, é que é o ponto-chave. De fato, nós vamos acabar vivendo com essa questão diariamente, nos treinos. Quanto à motivação, o grupo, após dois anos batendo na trave, gostou muito de ganhar. E é importante querer ganhar de novo. E temos que ter a consciência de que as equipes vão vir bem fortes para tentar derrubar a gente, porque estamos defendendo o título. Nós estamos observando os reforços da liga A e as equipes da liga B, que subiram bem fortes.

Nesse ano, nós adotamos algumas estratégias. Estamos participando de outra liga amadora, a do estado do RJ. E olhamos para outras competições com carinho. Queremos aumentar muito o número de jogos em 2020. E isso é uma forma de treinar para o brasileiro, em setembro.


6. Qual a expectativa no trabalho da categoria de base em 2020?


Na realidade, a minha expectativa com relação a categoria de base é fazer com que ela apareça para o voleibol do Rio de Janeiro. Trabalhar com categoria de base é trabalhar com sonho. São crianças de 10 a 15 anos. Nossa participação será com o Mirim e com infantil. São crianças que sonham em chegar em um nível profissional e em jogar no adulto do CQV. Eu estou muito motivado para mostrar esse trabalho. Sabemos que vamos enfrentar crianças que jogam há muito mais tempo. Passo o tempo inteiro falando disso. Como a nossa categoria de base está em Petrópolis, as crianças não têm muita noção do voleibol que se joga no restante do estado na faixa etária delas. E as nossas adversárias têm muito mais acesso às outras competições. As crianças que jogam no Rio de Janeiro geralmente acabam jogando também na praia que é uma modalidade que aumenta as capacidades motoras das praticantes. Estou as preparando psicologicamente para isso. Estamos dando o pontapé inicial para que o CQV consiga se perpetuar. A expectativa é apresentar o melhor voleibol e expandir os horizontes das nossas atletas


7. Você veio originalmente do futebol. Como foi esse processo de construção no vôlei?


Eu joguei futsal dos 11 aos 17 anos. Qualquer estudante da área de Educação Física imagina que vai trabalhar de maneira específica com o esporte que ele mais tem domínio. E eu pensei em trabalhar com natação, por ter nadado também. Trabalhar com preparação de goleiros, por ter jogado futebol. Jamais tinha pensado no vôlei. Meu primeiro contato com vôlei foi no Ensino Médio.

Fazer a transição do futsal para o vôlei… Acabou não rolando transição, pois eu já não jogava mais. Tanto que na faculdade eu não quis jogar na equipe de Futsal. Entendia que tinha muito mais gente qualificada, então o Futsal acabou virando um hobby pra mim. Na minha turma, eu tinha duas pessoas que jogavam vôlei. Uma era Paulinha, que hoje joga no CQV, e o Rafael Marones, que era um jogador excepcional. Ter o contato com esses dois facilitou muito. E com isso estamos falando de 2007.

Em 2010, eu estava na quadra esperando uma aula, junto com um amigo, o Fabiano. Um rapaz da Engenharia nos abordou com uma proposta de campeonato na UERJ e sugeriu que falássemos com nosso Centro Acadêmico para formação de uma equipe. Gostamos da ideia e fomos colocar em prática. O meu contato com vôlei começa aí. O Centro Acadêmico deu carta branca para formação da equipe e para elaboração de um campeonato chamado Jogos Integrados. Não tínhamos equipe em 2010. Fizemos seletivas para isso. E foi muito importante em termos de gestão esportiva. Passei nessa seletiva e comecei a tomar gosto pelo esporte. Sabia da dificuldade de jogar não tendo feito a base. Me apaixonei pelo conjunto, a questão dos protocolos do vôlei, pois eles são muito importantes para você mostrar respeito pelo adversário. Eu acho muito relevante quando se fala de formação de atletas e de indivíduos, e eu sou um educador antes de tudo.

Em 2011, eu conversei com o Tobias, o único treinador sem assistente. Pedi para ajudá-lo como auxiliar, sem interesse em ser treinador. Eu queria estudar um pouco mais sobre preparação física.


8. Uma de suas características mais ressaltadas é o estudo. O que você costuma priorizar em sua busca por conhecimento?


No dia a dia, eu gosto bastante de estudar vídeos de padrão de movimento. Fico fissurado de ver os movimentos plásticos, da passada de ataque, do saque.

Uma característica marcante da nossa comissão técnica de estudo dos jogos. O fato de a LIVERJ disponibilizar a transmissão facilita muito, para nós estudarmos o adversário. Na semana que antecedeu a nossa final (2019) contra o Cariocas, eu vi o jogo delas contra o Quissamã, pela semifinal, e o nosso jogo anterior contra elas umas três vezes. Sempre com observações, com anotações. E olhando como o Borsoi saía com o time em determinadas situações. Apurando se o saque delas começa com essa armação. Se o passe for deles, a armação tem essa configuração. A fulana faz a ponta da rede dois, ela tem a maior incidência de ataque desse jeito. E na marcação do bloqueio, a defesa roda da seguinte maneira. É estudar o adversário para chegar com ele minimamente marcado. Nós sabemos que a característica do jogo pode modificar uma outra ação, mas sabemos que a maioria das ações ser acusada pelas estatísticas. Eu acredito muito na ciência, no estudo. Eu acho que tínhamos que trazer sempre o conhecimento acadêmico alinhado com o esporte.

Eu gosto muito de ver exercícios de defesa, de passe. É uma característica importante que gosto de trazer para as minhas equipes. O CQV é uma equipe reconhecida pelo volume de jogo. E acaba sendo um traço do treinador, pela forma como conduzir o trabalho. E falo de treinador, mas eu estendo essa característica aos integrantes da comissão técnica.

Outra coisa que tenho feito muito é trabalhar com a qualidade visual e digital das atletas da categoria das categorias de base. Pintou um vídeo maneiro de padrão de movimento, eu mando para a equipe. E elas ficam empolgadas, se perguntando se algum dia elas conseguirão reproduzir aquele movimento. Acabo fazendo um treino mental com elas.


9. Em que situação é melhor trocar um aquecimento por uma ciranda?


Que pergunta! (RISOS) Em uma situação em que está dando tudo errado. O episódio da ciranda foi lá no Oásis, em um dia que deu tudo errado. Nós perdemos todos os jogos. A nossa libero na época tinha vindo direto de uma festa, então ela estava exalando álcool. Ela corria pela quadra e falava que estava aquecendo. Nem sei dizer qual era a influência que estava em cima do nosso time. Chegou no último jogo, que era contra equipe mais forte do campeonato, eu falei para não fazermos aquecimento normal. Vim com a sugestão da ciranda. E foi por aí. Nós vimos que nada estava dando certo e pedimos uma ajuda espiritual para recolocar a coisa nos eixos. Em momentos de crise, se troca o aquecimento pela ciranda.


11. Por qual motivo é dito que as resenhas do CQV são diferenciadas?


É uma característica do grupo. Apesar de ter um grupo grande, bem heterogêneo. Nós temos pessoas bem diferentes. Aí você imagina colocar essa galera no mesmo caldeirão. Vai dar choque em alguns momentos, é normal. Isso aí é a vida em sociedade mesmo. Nós tínhamos um hábito muito bom de acabar as resenhas ir para o bar, para o quiosque em frente à UERJ. Pedíamos uma pizza, ríamos, brincávamos, e eu estou falando de algo mais recente. Lá nos primórdios, nós brincávamos que jogávamos, perdíamos e íamos beber como se tivéssemos ganhado. É uma resenha ligada a cerveja, choro e risos. E a equipe sentia muito na carne o que era fazer parte do CQV. Isso lá no inicio da equipe. Era um outro grupo. Hoje eu tenho gente muito mais nova. Naquela época da criação da equipe, eu lembro da Camila muito nova, com 19, 20 anos.. O resto já tinha 24 ou mais. Tinha gente com filho. É uma outra pegada. O prazer de estar junto é determinante no vôlei amador.



12. Como você enxerga o afronte como tática de desestabilização?


Particularmente eu não gosto, mas eu entendo que existam pessoas que pratiquem o afronte como uma forma de desestabilizar o adversário. Tem equipes de muita qualidade que fazem isso, que são times bons tecnicamente, com peças muito boas, que tem o seu jogo, e que usam o afronte como estratégia em determinada parte do jogo. Esse afronte que eu digo de gritar na rede, fazer carão. Outras equipes não têm bola e vão fazer afronte porque não tem mais nada a oferecer. Acham que vão ganhar no grito, e não ganham. Não é o tipo de estratégia que eu utilizo ou que peço para as pessoas fazerem. É muito comum pessoas virem de outras equipes e sentirem essa diferença na gente.


13. Que medidas podem ser tomadas para o vôlei virar um esporte mais democrático e despido de preconceitos?


Eu acho que é uma questão muito mais estrutural da nossa sociedade. Tanto preconceito como a discriminação, eles estão muito enraizados na sociedade. Isso não significa que devamos cruzar os braços. Eu acho que essas políticas afirmativas para minorias, em termos de políticas públicas, são importantes na forma da representatividade. É um processo. Acabamos associando muito o voleibol masculino ao homossexual. Não sei dizer qual a relação direta, se o homem gay procurou o vôlei ou vôlei o atrai. Esse tipo de correlação não dá para ser afirmada. O voleibol é um esporte como qualquer outro. Por exemplo, o futebol é um meio extremamente machista. Nesse sentido, o voleibol atende muito mais as expectativas do público gay. Isso para falar nesse viés com relação à sexualidade.

Em qualquer esporte com dimensões e população elevadas, como tem o nosso, não tem como você pensar em democratizar ou em fomentar um esporte se você não tiver uma política nacional de detecção de jovens talentos que vá além da escola pública. O maior celeiro de talentos em qualquer país é a escola pública. Hoje nós vemos na LIVERJ, na base, que os talentos vem das escolinhas, porque não temos uma política pública que ajude as instituições a massificar o esporte. Nós acabamos tendo retorno por iniciativas próprias. E quando envolve o pagamento de uma mensalidade, você já restringe muito. O nosso país tem a desigualdade social compatível com o seu tamanho. A experiência que tenho é a de ver a galera que tem dinheiro passar nas peneiras. Enquanto não tiver um olhar diferenciado para as classes menos favorecidas do ponto de vista financeiro, enquanto não conseguirmos fazer um link do clube com a escola pública, e do clube/escola pública/universidade para aliar a captação com o conhecimento científico, não tem como pensar em democratizar.

Outra coisa: criar espaços públicos de lazer em que seja possível jogar voleibol. Hoje, o que nós vemos é que a cada 1000 quadras, 999 são voltadas para o futebol e uma tem uma tabelinha de basquete. É muito difícil ver no Aterro do Flamengo uma galera jogando handebol. Até se vê vôlei e basquete por lá, mas não há como competir com o futebol.



14. O que gostaria que as pessoas mais soubessem sobre Diogo Batista?


Eu gosto muito de trabalhar com vôlei, amo esse esporte, o CQV é o projeto da minha vida. Estou muito feliz de ainda estar com o time adulto da UERJ, de ter a possibilidade de criar a categoria de base em Petrópolis, a cidade onde moro. Penso em expandir. Eu quero que o CQV continue sendo reconhecido por disputar a LIVERJ em alto nível. Quero que a base vivencie uma experiência maneira nesse ano e nos anos seguintes. O resto é consequência, Mães ter essa sensação do dever cumprido de que as crianças se divertiram e aprendendo. Isso para mim é o que me satisfaz. Isso que eu queria passar. Eu me dedico muito ao projeto CQV porque eu o amo muito. É o que me move depois de sair de um treino em Petrópolis e ficar até tarde na UERJ.

Dei muita sorte com as pessoas que estiveram comigo na comissão técnica. Escuto bastante as pessoas ao fim dos treinos. Não tenho vaidade com os colegas da comissão. Caio é meu assistente, mas ele tem autonomia. Eu pego informações dele e o incentivo a dar instruções ao time. Até para funcionar mesmo a comissão.

Não curto muito a mídia, os holofotes. Deixo para os atletas, pois são elas que fazem o espetáculo.

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