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Entrevista - Árbitra Simone Pontes

Por André Lima


Entrevista - Árbitra Simone Pontes


O episódio em que o Rei Salomão, diante de duas mulheres que pleiteavam a maternidade de uma criança, é bastante conhecido, significativo. Quero me deter somente no aspecto da decisão que esse caso carrega e ainda acrescentar que o Rei só dependia de seus olhos para avaliação.


Frente à intransigência das mulheres, Salomão determinou que a criança fosse serrada ao meio, com a entrega de cada metade para as reclamantes. Em seu íntimo, o juiz contava com o instinto materno, que jamais permitiria que um rebento seu fosse ferido somente para satisfazer uma vontade. A mãe verdadeira recusou o ato. E assim o Rei pode fazer justiça.


A cadeira do juiz e da justiça é um local espinhoso. Caso não haja o devido cuidado, o assento especial se volta contra o próprio ocupante, espetando-o, ferindo-o. Basta que ele escolha a mãe errada. No vôlei, se ele fica incógnito o jogo inteiro, a sua missão teve êxito. Eu ouvi de alguns juízes que o ideal é ser condutor fiel de um bom espetáculo, com justiça e polidez.


A majestade de nossa sabatina não é um rei, e sim uma rainha. Com sensibilidade, elegância e boa observação da quadra e do que a cerca no cotidiano, a coluna da semana traz uma entrevista com a excelente árbitra e professora de Educação Física Simone Pontes, 42, e sete anos de jornada nos retângulos mágicos que sediam o voleibol brasileiro.


Foto de Ricardo Haleck


1. Por que escolheu (ou foi escolhido(a)) pela arbitragem?


Na realidade, o que me motivou a escolher a arbitragem de vôlei foi a paixão pelo esporte. Conheci o jogo na época de escola, mas nunca tive a oportunidade de jogar profissionalmente. Outra inspiração veio através de uma amiga.


2. No que a arbitragem de vôlei se diferencia da mesma atividade em outros esportes?


Eu acredito que o vôlei possua regras muito mais complexas e sujeitas às interpretações. Acho que se torna mais difícil dirigir o vôlei, por causa da interpretação e da aplicação da regra durante o jogo.


3. Existe jogo difícil de apitar ou tudo é uma questão de postura?


Existem jogos mais complicados, sim. A postura é fundamental, independente do grau de dificuldade. E a dificuldade pode ser relacionada à pressão dos atletas ou ao apelo da torcida. Isso gera uma pressão maior para cima da arbitragem.


4. Levando em conta que alguns recursos são até usados na condição de tática, as tecnologias auxiliam ou atrapalham o trabalho do juiz?

A tecnologia ajuda. Não tira o lugar do árbitro. Muito pelo contrário, ela está ali para auxiliar o nosso trabalho, principalmente hoje em dia, quando o vôlei se tornou um esporte muito rápido, de bolas muito velozes.


5. Com os olhares detidos da torcida, comissão técnica e dos jogadores, a cadeira do juiz é um dos locais mais solitários do mundo?


Gostei de sua pergunta. É um dos locais mais solitários do mundo? Talvez, mas não vejo dessa forma. Eu acho que em um jogo de vôlei as estrelas são os atletas, as equipes. Não somos nós. Um bom árbitro passa despercebido do início ao fim da partida. Nós estamos ali para fazer com que a regra se cumpra. Estamos ali para fazer o nosso trabalho. Quem tem que brilhar são os atletas. O espetáculo é o voleibol.


6. Aconteceu algum equívoco pelo qual você tenha se arrependido?


Já aconteceu equívoco, sim. Porque nós somos seres humanos. Nós não estamos 100% todos os dias. Aconteceu de eu fazer uma marcação, e, de repente, “desculpa, não é isso! é para o outro lado(a marcação correta)!” Pedi desculpas humildemente, chamei as capitãs. Eu não estava em um bom dia. Estava passando muito mal, com dor de cabeça.


7. Palavra de rei volta atrás?

Palavra de rei volta atrás, sim. Claro que sim. Nós somos humildes, acima de tudo.


8. Qual decisão em um jogo que mais lhe deu certeza de estar no local certo?

É difícil lembrar uma única decisão. O que me lembro é de ter feito um bom jogo. Ter feito a regra ser aplicada de maneira acertada, na interpretação correta da regra, na forma disciplinar. Quando eu consigo fazer isso, durante uma partida, eu saio plena de que estou no lugar certo.


9. Tem algum jogo que você guarde como o seu maior êxito?

Foi uma partida de um campeonato sul-americano, um dos primeiros de minha carreira na arbitragem. E um colega mais antigo que eu, o Mayer, me deu a oportunidade de trabalhar na final. E eu trabalhei muito bem.


10. Quais as maiores virtudes e defeitos de um árbitro?

É ser justo, aplicar bem e interpretar corretamente a regra. É ser humilde. E o maior defeito de um árbitro, na minha opinião, é a arrogância. Não somos os detentores da verdade.


11. Tem alguma história especial em sua jornada na LIVERJ (pode ser em outras andanças) que você gostaria de relatar?


Essa pergunta é muito interessante. Eu tenho uma história especial com a LIVERJ. Foi a primeira vez como árbitra em que desqualifiquei um atleta. Não é uma história muito agradável, mas, no final, serviu como algo muito bacana. Por quê? Naquela ocasião, a LIVERJ ainda estava no início das competições, da sua formação estrutural, bem diferente do que é hoje. Porque nos dias atuais vocês se consolidaram como uma liga muito mais organizada do que anos atrás. Quando eu desqualifiquei esse atleta, foi porque ele me xingou. Não vou reproduzir o xingamento. Eu tive que desqualificá-lo. Teve muita repercussão dentro da LIVERJ sobre os motivos que o teriam desqualificado. Eu não quis chamar a atenção para mim, mas tive que aplicar a regra. E, de acordo com a regra, ele tinha que ser desqualificado. E eu fui questionada. Por que eu havia tomado aquela decisão? O atleta ficou suspenso. No final, ele entendeu os motivos pelos quais foi expulso, me pediu desculpas. E eu disse o seguinte, “Você tem que pedir à organização da LIVERJ. Por quê? Se vocês querem realmente que a liga seja respeitada, seja vista como responsável, e que leve realmente a sério as regras do vôlei e a competição em si, a primeira coisa é respeitar as regras e a execução delas, principalmente respeitando a arbitragem”. E foi essa a mensagem que eu quis passar. Naquele momento, a LIVERJ precisava ser levada a sério, como uma liga de referência no Rio de Janeiro, que hoje, se vocês não já atingiram, estão muito próximos desse patamar. Se um atleta não respeita um árbitro que está trabalhando, quanto mais o campeonato. Foi uma história interessante com um final bacana. A equipe postou um pedido de desculpas a mim e à LIVERJ.


12. Qual o conselho mais valioso a ser dado a um colega de profissão que esteja começando agora?


Não desista! Estude e ame muito o vôlei. Vai dar tudo certo no fim.


13. Quais as dificuldades de ser uma mulher na arbitragem?


Já foi pior. O preconceito ainda existe, mas o que define um bom árbitro não é gênero, e sim uma boa atuação, o estudo de regra, a competência na hora de aplicar. E nós, as mulheres merecemos tanto respeito quanto um homem. Infelizmente, uma parte da sociedade é muito machista, e esse terreno do esporte, da arbitragem e do vôlei ainda é muito masculino. Estamos lutando para conquistar o nosso espaço, mas tivemos boas conquistas. A existência do preconceito ainda é um ponto negativo. Até no meio do vôlei mesmo, entre os colegas, eu já ouvi coisa do tipo, “Ah, você é apontadora, não é? Mesária?” Só porque eu sou mulher. Eu respondi, “Não, eu sou árbitra”.

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